Jornal classifica de “Caso vergonhoso” a necessidade de a OAB/MS apelar à OEA

Campo Grande (MS) – A intervenção, a pedido da OAB/MS, da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos) para solução do chamado Caso Motel (duplo homicídio envolvendo a garota de programa Eliane Ortiz e o universitário Murilo Boarin Alcade, encontrados mortos no dia 21 de junho de 2005, num dos quartos do Motel Chega Mais, em Campo Grande) foi tema de editorial do jornal Correio do Estado na edição desta segunda-feira (7). Veja, abaixo, a íntegra do editorial:

Caso vergonhoso


Como se não bastasse a situação caótica pela qual passa a segurança pública no momento atual, o que fica evidente com o grande número de assaltos e latrocínios, o famoso Caso Motel, que chegou à Organização dos Estados Americanos (OEA), indica que algo grave está ocorrendo há anos e que a situação atual pode até ser reflexo de problemas que vêm se arrastando e que somente com uma intervenção externa radical poderão ser solucionados. O assassinato de dois jovens, ocorrido em junho de 2005, até hoje não foi esclarecido e desde o começo há indícios de que integrantes da segurança pública estão envolvidos, pois somente isto pode explicar o sumiço de provas de dentro do IML e a forma estranha como foram conduzidas as investigações.

No crime pode até não ter havido envolvimento direto de membros da cúpula, mas não restaram dúvidas de que alguns destes sempre protegeram subalternos ou pessoas influentes, que por sua vez “mandam” até hoje na pasta. Os autores possivelmente acreditavam que o duplo homicídio acabaria caindo no esquecimento como tantos outros crimes não esclarecidos. Porém, por insistência de familiares de Murilo Alcalde e da imprensa, o caso insiste em permanecer vivo. Agora, por conta da omissão ou conivência de alguns, a Polícia Militar e a Polícia Civil inteira correm o risco de serem colocadas sob suspeita nacional (o programa Linha Direta mostrará o caso) e internacional, pois a OEA já deixou claro que está estudando os dez volumes do inquérito encaminhado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/MS) e que deve cobrar providências do Governo de Mato Grosso do Sul, o que seria algo digno de envergonhar todos aqueles policiais que honram a farda ou o distintivo.

Desde o começo do ano passado, dezenas de policiais foram processados administrativamente por, supostamente, fazerem corpo mole ou boicotarem o trabalho das instituições. Embora os erros de uns não justifiquem os de outros, certamente os desmandos que vinham ocorrendo no setor contribuíram e ainda contribuem para que se criasse uma cultura do desleixo e da despreocupação no que se refere à segurança da população. Então, se hoje a criminalidade tomou conta de cidades como Campo Grande, uma das explicações certamente está em “investigações” estranhas como a do Caso Motel, a qual revela que há bandidos perigosos dentro da própria polícia. O juiz Júlio Siqueira já deixou claro que, por falta de provas consistentes, ninguém será punido pela morte dos dois jovens. A esperança, contudo, é que a OEA, entidade que congrega 35 países americanos, impeça o arquivamento definitivo do inquérito, leve à punição dos culpados e ao destronamento de bandidos que posam de mocinhos, recupere o moral da tropa dos quartéis e delegacias e, de quebra (o que é o principal), restabeleça a confiança na polícia de MS e a sensação de segurança, que simplesmente foi pelos ares.

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