Notícias

Primeira advogada a abrir escritório em Chapadão, Natalina Luiz de Lima conta um pouco de sua trajetória

Data:

“Tinha semana que eu fazia até três viagens para as cidades vizinhas, o que empreendia uma verdadeira maratona diante das condições precárias das rodovias, onde algumas sequer eram pavimentadas”. O início da carreira na década de 90 não foi fácil. Aos 56 anos, Doutora Natalina Luiz de Lima relembra um pouco de sua trajetória no interior.

Infância empreendedora

Natural de Dracena, interior de São Paulo, descendente de família Italiana, Natalina teve uma infância modesta. Aos 8 anos de idade, a procura de melhores condições de trabalho, seus pais se mudam para Dourados. “Um ou dois anos após nos instalarmos, papai abriu uma empresa na área de parafusos, ferragens, ferramentas e equipamentos agrícolas, que recebeu o nome de Parafusos Paulista Ltda”. Aos 11 anos, ela começou a trabalhar na empresa de seu pai Jovelino Luiz de Lima. Os anos se passaram, a juventude chegou, o cargo de gerência e com ele a paixão pela advocacia.

Enfim, em 8 de fevereiro de 1995 ela prestou o compromisso, após terminar a faculdade na Socigran, atual Unigran. A carteira? OAB/MS 6.279.

A chegada em Chapadão

A convite do pai, ela recebe a incumbência de levar um Ford Landau a Chapadão do Sul, distante mais de 500 km de Dourados. Aquela viagem mudaria sua vida. “Chegando, me apaixonei de plano pela cidade e vi a possibilidade de instalar meu escritório de advocacia aqui. Em pesquisas, constatei que a Comarca de Chapadão do Sul já havia sido criada, porém não instalada por ausência de demandas. Fui a primeira Advogada Mulher a fixar endereço profissional e apostar na Cidade de Chapadão do Sul”.

Bem recebida no novo posto de trabalho pelos, até então, poucos advogados da cidade, ela dividia o trabalho em Chapadão, Cassilândia, Paranaíba e Costa Rica. “Não se deixando abater pelo medo e insegurança, viajando dia e noite em rodovias precárias, sendo muitas vezes acompanhada pelo parceiro e esposo”. Na época, os autos eram físicos. “Lembro bem dos despachos assim: manifeste-se a parte sobre o despacho ou documento de fls. xx, onde era necessário se deslocar até o fórum para verificar do que se tratava”.

Foi nessa época que ela viu a possibilidade de trabalhar na área de cobranças e execuções judiciais, prestando serviço de assessoramento junto ao comércio local de assessoramento. “As empresas foram recepcionando o meu projeto, e comecei a construir a clientela que me são em sua maioria fieis até hoje, muito embora hoje os trabalhos na área de cobrança é ínfimo e a atuação do meu escritório se ampliou de forma a cobrir boa parte das áreas de direito”.

Quando da instalação da Comarca de Chapadão do Sul, em 23 de outubro de 1999, o escritório de Doutora Natalina produzia os processos e dois conciliadores promoviam as audiências de conciliação, Dr. Wilson Pinheiro e Sergio dos Santos Kasmirczak.  “Sempre dava acordo”, lembra ela.

‘Causo’

Enquanto mulher e atuante na área trabalhista, ela se recorda de um caso em que o advogado do reclamante duvidou de seu trabalho. “Fui contratada por uma empresa de Chapadão para promover a defesa técnica em uma reclamação trabalhista, cujo processo tramitou em Montes Claros/MG. Na época, quando da audiência UNA, o Advogado do Reclamante – alto, forte que trazia do cabeçalho da inicial o seu curriculum vitae (meia página), se aproximou de minha pessoa propositalmente, e me mediu da cabeça aos pés e disse: “É esta advogadazinha que vai me enfrentar? Meu cliente me olhou estarrecido e disse, não vai revidar? Eu, na época 1,56 de altura e pesando 52 kg, realmente minha estatura não permitia acrescentar em nada, eu realmente era pequenina. Não revidei”. E o resultado doutora? “Ganhei o processo, por improcedência total da reclamação trabalhista”.

Essa é uma das diversas histórias que Doutora Natalina, assim como diversas advogadas entrevistadas pela OAB/MS, passaram por serem advogadas mulheres na década de 90. Ainda que não pareça tão longe os anos 90, naquela época a advocacia ainda era uma profissão majoritariamente masculina. Hoje, a OAB/MS já conta com mais de 50% de mulheres em seus quadros.

E como se tornar uma boa advogada? “O Direito evolui sempre, e consequentemente temos que nos adaptar, construir, desconstituir e reconstruir novos conceitos. É necessário ser audaz, mas antes disso, saber ouvir, pois com muita frequência nos deparamos com situações de cunho social, onde uma boa orientação impede um grande conflito”.

Ela continua: “Não avaliar o cliente somente pela projeção financeira da causa, o cliente sólido é muitas vezes capitado nas atitudes simples e modesta e com elas as grandes causas”. Esse é o recado que Doutora Natalina deixa aos mais jovens na advocacia. Ela, assim como vários outros advogados e advogadas decanas, foram entrevistados pela equipe de imprensa da OAB/MS para o Projeto Compartilhando Conhecimentos.

Casada com Clarineu José Nogueira, Doutora Natalina, que foi a primeira advogada da família, tem três filhas, a Veterinária Kenya Keterine de Lima Nogueira, que está cursando Direito, a Psicopedagoga Aline Katiussy de Lima Souza Melo e a Advogada Anne Karine de Lima Souza Rossi (Secretária-Geral da Subseção Chapadão do Sul da OAB/MS), além de quatro netos.

 

Texto: Catarine Sturza / Fotos: Arquivo Pessoal