Campo Grande (MS) – A “urgente retomada da credibilidade da atividade política como a única autêntica via para o exercício civilizado do poder” em reação ao descrédito que tem levado boa parte da população a desacreditar na democracia, é defendida pelo presidente da Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil de Mato Grosso do Sul (OAB-MS), Fábio Trad, nesta tarde, em discurso na solenidade de posse do advogado Ary Raghiant Neto no cargo de juiz titular do Tribunal Regional Eleitoral .
Veja a íntegra do discurso de Fábio Trad:
Saudação às Autoridades:
A posse do advogado Ary Raghiant Neto como juiz titular neste egrégio Tribunal renova o alento de todos quantos ainda acreditam na Política como uma missão sagrada.
De fato, a indiscutível mediocridade do diálogo entre os programas partidários aliada a superficialidade da mensagem discursiva da classe política brasileira robustecem a impressão de que a política deixou de ser um ideal, reduzindo-se a uma ocupação semi-profissionalizada cuja atração maior são status e vantagem material.
A descrença na política é sintoma revelador de grave patologia social. Ao tempo em que a política se distancia de sua razão de ser para constituir-se em desejo dos pragmáticos e espertos, mais servirá ao utilitarismo rasteiro daqueles que a exercem pensando em si em detrimento de todos.
A democracia brasileira é uma conquista que precisa ser vigiada com olhos de lince e devoção missionária. Ditadura eficiente e democracia ineficaz não é dilema que se possa levar a sério por quem professa a convicção nos ideais democráticos. No dia em que a maioria deliberar por aceitar a troca do pão pela liberdade, o retrocesso será inevitável e mais uma vez teremos que lutar pelo sagrado direito à liberdade.
Pesquisa publicada pelo jornal Folha de S. Paulo há 4 (quatro) anos revela sinais preocupantes não apenas para a classe política, mas para todos aqueles que comungam a fé democrática:
“58,1% Concordam que o presidente possa ir além das leis
56,3% Crêem que o desenvolvimento econômico seja mais importante que a democracia
54,7% Apoiariam um governo autoritário se resolvesse os problemas econômicos
43,9% Não crêem que a democracia solucione os problemas do país
40% Crêem que possa haver democracia sem partidos
38,25% Crêem que possa haver democracia sem Congresso Nacional
37,2% Concordam que o presidente ponha ordem pela força
37,2% Concordam que o presidente controle os meios de comunicação
36% Concordam que o presidente deixe de lado partidos e congresso
25,1% Não crêem que a democracia seja indispensável para o desenvolvimento”
(Dados publicados em: MAIORIA na AL apoiaria ditadura ‘eficiente”. Folha de S. Paulo, São Paulo, 21 abr. 2004. Caderno A p.14. Transcrição na íntegra dos dados recolhidos pelo respectivo jornal do relatório divulgado pelo PNUD/ONU intitulado A democracia na América Latina. Dados disponíveis em: www.pnud.org.br/index )
Daí a importância de se propor uma urgente retomada da credibilidade da atividade política como a única autêntica via para o exercício civilizado do poder.
A política, que deveria recordar o vôo das águias pelo idealismo sobranceiro de quem assume a árdua missão de trabalhar para o coletivo, impressiona pelo sentido contrário, porque à medida em que se distancia dos bons, dos idealistas, dos ingênuos de boa-fé, dos que desconhecem a complicada linguagem do tráfico de favores, dos que ignoram a engenharia das manobras ardilosas e dos frios cálculos das traições com hora marcada, mais e mais, o que era para recordar o vôo das águias, lembra o passo insinuante das raposas.
E neste compasso sincopado no ritmo das desvirtudes, o poder se fecha sobre si mesmo e repele os que o querem para fazer o bem, transformando-se em uma atividade melancólica, vingativa, cruel, triste e radicalmente desinteressante. Não é mera coincidência que a decantada pobreza dos quadros políticos brasileiros se processe justamente no contexto de recrudescimento da crise da própria política. As saudades que choramos por ideais de políticos como Afonso Arinos, Carlos Lacerda, Otávio Mangabeira, Juscelino Kubitschek, Teotônio Villella e tantos outros que elevaram a política a altitude de verdadeira ciência perderam-se nas brumas do tempo… e o que um dia foram lágrimas de esperança, hoje são lágrimas de desencanto e decepção.
A ascensão de Ary Raghiant Neto ao cargo de Juiz Eleitoral é motivo de alento, todavia.
Sim, primeiro pelo advogado que é. De fato, o empossando é um advogado que se fez sem o socorro da caridade alheia, sem o tradicional auxílio de parentes advogados, pois tudo o que conquistou na sua vida profissional é resultado de sacrifício pessoal que suportou de forma abnegada.
Fez-se por si, mas, é claro, que, no estribilho de sua vitória pessoal, as digitais de quem o ama estão gravadas na memória afetiva de todos quantos conhecem a sua vida pessoal. Por isso, urge exaltar na celebração deste marco em sua carreira o fundamental papel exercido por sua família, na pessoa de seus queridos pais Uriel e Leila, de sua amada Daniele, e dos seus filhos, amigos dos filhos dos nossos amigos, que, comovidos, é certo, estão orgulhosos de partilhar este grande momento na vida de Ary Raghiant Neto.
O advogado que é não empana, antes reaviva e destaca, o empossando como ser humano. Fiel as suas convicções, leal e corajoso no enfrentamento das adversidades, não é daqueles que dissimulam qualidades para ajustar-se às conveniências, disposição de espírito que mais o torna admirável perante os que verdadeiramente o conhecem.
Enfim, trata-se de um excepcional quadro da advocacia sul-mato-grossense que, certamente, dignificará esta corte de justiça em virtude de seus predicados morais e intelectuais.
Aos que descrêem da capacidade de se manter fiel aos princípios da beca, trajando a toga, basta recordar Evandro Lins e Silva no Supremo Tribunal Federal, um Juiz justo que advogou os valores da liberdade e da democracia no período em que ambas eram inimigas do regime.
Assim é e será Ary Raghiant Neto! Um Juiz temporário no coração de um Advogado definitivo. Um Juiz justo, digno da toga que agora veste a sua alma de advogado.
Até porque Deus o abençoa, ele o sabe, posto que protegido por espíritos de luz, até mesmo nas contingências do acaso, que o fez iluminado por contar com um substituto tão virtuoso quanto glorificado, o querido advogado André Pagnoncelli, sobre cujos ombros, Maria Santíssima, a quem a sua fé reserva inteira devoção, destinou a sagrada missão de realizar Justiça!
Obrigado!
Fábio Trad – presidente da OAB-MS