“A vida não serve se não for para servir”: Geraldo Escobar, inspiração de amor à vida e fé

10 de abril de 2021. Um dia de muita dor para quem conviveu e agora se despede do Advogado e ex-Presidente da OAB/MS Geraldo Escobar Pinheiro. Aquele que amava a vida e dividia com todos sua paixão pela família, amigos, advocacia e fé.

Em uma de suas postagens, a mensagem: “A vida não serve se não for para servir.” E ele servia, com sábias palavras, em suas redes sociais praticamente todos os dias trazia reflexões sobre amor, religião, união e fazer o bem.

Todo o cuidado daquele que amava o próximo, mas sabia da importância de ficar em casa acompanhando todas as missas que podia pela internet. Mesmo com todos os cuidados, toda proteção, todo o refúgio do “lar doce lar”, Deus tinha um plano maior para esse homem, que compartilhou suas emoções no seu Facebook até o último dia antes de ser internado.

Em um dos seus últimos vídeos, “Convida ou Covide 19”, ele relaciona o “ficar em casa” à prisão domiciliar. Da sacada de sua casa, Doutor Geraldo divide com os amigos a poesia:

Confinado em minha casa, que virou uma prisão, proibido de sair sem pode ir, nem vir. Pensei que esse sistema de prisão residencial fosse forma de punir bandido e infrator, que pratica um crime, uma ofensa ou uma dor. Agora estou sabendo que essa segregação também serve para inocentes, honestos e bom pagador, que cuida da saúde do vizinho e do trabalhador.

Hoje acordei bem cedo com vontade de fugir, sair dessa prisão, passear pela cidade, ir ao mercado comprar pão, rezar e comungar na Igreja de São Sebastião.  Já cansado do castigo, de olhar para o teto e para o colchão, para parede e tentar achar uma forma ou até uma motivação, que justificasse ficar preso e que servisse de explicação. Vasculhei a paciência, adormeci a tolerância, mas nada me convenceu.

Corajoso e responsável, resolvi fugir de casa, ir no boteco mais perto, conversar com o vendedor, garçom, proprietário, vizinho ou mesmo outro infrator. Mas, como sou obediente, mais medroso do que valente, para proteger o meu pulmão, me vesti que nem doutor, peguei máscara, luva, álcool e sabão. Todo arrumado e bem vestido, segui direto para o portão, mas fui bruscamente parado pela voz da televisão: “Pare, fique em casa. Não saia não”.

Como sou corajoso, já enfrentei solidão, tempestade, bandido e ladrão, decidi seguir minha decisão. Não tenho medo de nada, vou sair armado de tudo, quero ver esse vírus 19, 20 ou qualquer numeração se vai me pegar na contramão. Eu parecia um astronauta ou um louco teimoso, um velho ancião, com todos os apetrechos para evitar a contaminação. Fui em frente, não dei atenção, mas ouvi de novo um sermão: “Se sair, o bicho pega. Vai morrer sem respiração. Agora acabou a brincadeira. Partiu para coação”. Era um anjo que avisava, era essa explicação, na voz da autoridade, que um lar nunca é prisão, é arca de proteção, que vai de novo salvar a multidão. Desisti da intenção, vou ficar na minha casa, manter minha respiração.

Deus, de fato, nunca esquece, sempre cuida da criação, do seu filho, do presente, do futuro, essa nossa geração. Para ganhar esse presente, cada um na sua vez, deve fazer sua parte: ficar em casa, ter fé e fazer sua oração.

Tudo passa na verdade. Vamos aprender essa lição. Nossa casa é o refúgio, não é uma prisão. Jesus Cristo está presente, vamos dar as nossas mãos e praticar fraternidade, amor e união para ajudar nosso irmão. Lembrando que hoje, você está bem, mas e amanhã? Não pode não. Então, seja muito obediente, tenha muita atenção para viver bem e manter sua saúde, sua respiração, fique em casa meu irmão. Obrigado pela sua atenção”.
(Grifo da jornalista)

 

O texto, compartilhado no dia 19 de abril de 2020, completa praticamente um ano. Um ano de dor. Um ano de luto. Um ano de união. Um ano de aprendizado. Vivemos o pior momento da pandemia, mais do que nunca precisamos nos cuidar. Não esqueçamos as recomendações. Já perdemos tantos advogados, arquitetos, professores, autônomos…

Em um ano de privação, Doutor Geraldo não escondia o desejo de voltar a viajar, de percorrer novas terras e fazer novas lembranças. Em uma peregrinação no Caminho de Santiago de Compostela, as sábias palavras: “A fé se fortalece a cada instante de dificuldade”.

Ele sabia que o cenário era de paciência, amor, união, de fortalecer a fé e de fazer o bem. Suas últimas férias foram na Capital Morena com a família, como ele dizia, “o bem mais precioso”. Não viajou em dezembro ou janeiro, pois sabia que não era o momento. Na sua postagem, daquele dia 3 de janeiro, comenta sobre desfrutar esses momentos: “Já fazia muitos anos que não passava férias por aqui. Hoje fizemos uma caminhada no Parque dos Poderes. Muita sombra, alguns animais como quatis, macacos e araras são vistos e embelezam o cenário. Sol quente, céu azul e o Lago do Parque Indígena são vistos pelas frestas das árvores do cerrado quando se anda por fora. Perfume das flores estão presentes na brisa que afaga o calor da manhã”.

Geraldo Escobar, um ser de coragem, espiritualizado, que amava a vida e mais ainda viver, que falava com e sobre Deus e agora se foi, ao encontro dele. Sua energia e esperança sempre serão lembradas por todos aqueles que conviveram com ele.

E a jornalista aqui, quem voz escreve, esperava ansiosamente a sua saída do hospital e melhora nesse cenário de pandemia para uma matéria especial, de inspiração aos mais novos, daquele que amava o que fazia e fazia o que amava, que teria vencido a Covid após dias internado. Parece que o ser de lá de cima tinha um propósito maior.

Obrigada Doutor Geraldo, por todo esse legado de amor e fé.

Descanse em paz.

 

Texto: Catarine Sturza