Tradição árabe e influência da família comerciante não fizeram com que Ana Abdo desistisse da advocacia

Na década de 60, Ana Cristina Abdo Ferreira crescia em uma chácara no centro de Campo Grande, em meio ao comércio de secos e molhados de pai Aniz Abdo e de seu avô Abud Abdo. Apesar da influência árabe e da tradição comerciante da família, ela escolheu a advocacia. Hoje, aposentada aos 62 anos, ela conta um pouco de sua história a Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Mato Grosso do Sul (OAB/MS).
Ana Abdo passou a infância entre 14 de Julho e a Rua Constituição, hoje, Rua Padre João Crippa. “Minha casa era uma verdadeira chácara, tínhamos cavalo, arara, papagaio, jaboti, capivara, patos, galinha, quati e outras espécies. Eu vivia livre num mundo de muito amor e fartura. Cresci aprendendo vender, arroz, milho, charque, alpargatas, calças jeans, corda, vinhos, fazer troco e comer os sonhos de valsas escondido. Somos em três filhas, Marilda, eu e a Maristela. Meu pai era sempre cobrado pelos patrícios por um filho homem e ele dizia: sou feliz com minhas filhas mulheres”.
Sua mãe era professora, Estela Cortez Abdo, “uma mulher de muita fibra e que sempre me ensinou que não podemos depender de ninguém e nem do marido. Sempre me incentivou a estudar e ficou orgulhosa ao me ver formada”. O pai, ela descreve: “Um homem muito forte, lindo, honesto e carinhoso”.
Apesar de o pai preferir o comércio e não querer que ela seguisse o Direito, ela prestou o vestibular e foi aprovada. “Formei pela Fucmat (atual UCDB) em 1990, turma Horácio Vanderlei Pithan, saudoso mestre de Direito Civil. Nessa época já era casada, com dois filhos e também aprovada em Concurso Público Federal no Ministério da Saúde”. Mesmo contra a vontade do pai, que dizia: “Vocês tem salão para montar qualquer comércio e não pagar nem aluguel. Eu nunca fui empregado de ninguém”.
Com a carteira OAB/MS 8.302, ela passou pela Procuradoria e receita Federal. “Logo após a formatura, meu querido mestre, Marco Antônio Cândia me chamou e perguntou se eu não tinha interesse em ir para Procuradoria da Fazenda Nacional, pois o Procurador-Chefe estava montando a Procuradoria e precisava de pessoas com a formação em direito. Depois passei pela junta de Julgamento e finalizei meu tempo de serviço na Receita Federal do Brasil. Fiz algumas peças quando não havia impedimento pelo cargo que exercia”.
Doutora Abdo foi Conselheira da OAB/MS e membro de Comissões. “Fui participar da política de classe a convite do meu saudoso amigo Marco Túlio Mutano Garcia. Política é uma das minhas paixões. Fui Conselheira da OAB/MS, naquela eleição atípica, tempo maravilhoso, recordo com saudades”.
A paixão por vendas, ela não perdeu, atuou também como Corretora de Imóveis e agora aposentada, casada com Júlio César Dourado Ferreira, aproveita os quatro filhos, Aniz, Juliana, Rafael e Isabelle e os quatro netos, Eduardo, João Otávio, Juliano e Júlia. “Faz um ano que estou aposentada. Sou uma pessoa realizada. Com essa pandemia, os meus planos estão sendo adiados, mas nada disso me deixa triste ou abalada, pois confio em Deus. Sou daquelas que acho todas as pessoas maravilhosas, até que provem ao contrário”.
Ao fim da entrevista, Doutora Abdo parabeniza o Projeto ‘Compartilhando Conhecimentos’ da OAB/MS e agradece a Diretoria. “Quero deixar o meu agradecimento ao meu dileto amigo, Mansour Karmouche, Presidente da OAB/MS e Eclair Nantes, Secretária-Adjunta, mulher que eu muito admiro”.
Doutora Ana Abdo, assim como Alci Araújo, João Glauco Arrais, Aparecidos dos Passos, Belmira Vilhanueva, Osvaldo Feitosa de Lima e Vicente Sarubbi, foram entrevistados pela Equipe de Imprensa da OAB/MS, no Projeto ‘Compartilhando Conhecimentos’. O objetivo da Seccional é apresentar a todos um pouco da carreira e vida daqueles que escreveram a história da advocacia sul-mato-grossense.
Ao fim, a Doutora Abdo deixou um recado aos advogados e advogadas mais jovens. Para ela, com tantas obrigações e tarefas é comum a advocacia enfrentar dias difíceis em que o cansaço e o desânimo parecem tomar conta. Mas, “ser advogado é trabalhar muito, todos os dias, além de todos os estudos que devem ser constantes. Ainda, ter disposição, paciência e nunca desistir diante dos obstáculos”.
Texto: Catarine Sturza / Fotos: Arquivo Pessoal