Campo Grande – A iniciativa do Movimento MS Contra a Violência de reunir especialistas dos diversos segmentos da sociedade civil e do poder público em uma conferência que resultará num relatório final com sugestões para a implantação de uma política pública de segurança em Mato Grosso do Sul é “muito importante, pois aproxima o poder público e a sociedade e representa a divisão de responsabilidade do governo e da população”. A opinião é do delegado de Polícia Civil e professor universitário André Matsushita Gonçalves, atualmente exercendo suas funções na Superintendência de Segurança Pública da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).
A Assessoria de Imprensa da OAB/MS entrevistou nesta segunda-feira (5) o delegado Matsushita, que será um dos palestrantes da “Conferência MS Contra a Violência – Superação da Violência e Promoção da Cultura da Paz” abordando o tema “Justiça e Segurança Pública contra o Crime Organizado”. O evento será sediado no auditório da Seccional da Ordem a partir de quarta-feira (7) e culminará na sexta-feira (9) na entrega de um relatório final aos representantes dos três poderes do estado: o governador André Puccinelli, o presidente da Assembléia, deputado Jerson Domingos, e o presidente do Tribunal de Justiça, João Carlos Brandes Garcia.
Veja a entrevista concedida pelo delegado André Matushita à Assessoria de Imprensa da OAB/MS:
OAB/MS – Como o senhor avalia a iniciativa do Movimento MS Contra a Violência de reunir especialistas da sociedade e do governo para debater problemas e fazer sugestões para a implantação de uma política pública de segurança realmente eficaz em Mato Grosso do Sul?
André Matsushita – É uma iniciativa muito importante pois aproxima o poder público da comunidade. Esse movimento difunde a idéia de participação da sociedade nas decisões do governo, essencial a um estado democrático, e também implica em divisão de responsabilidade.
OAB/MS – Como representante da Secretaria de Justiça e Segurança Pública o sr. realmente acredita que as propostas a serem definidas na conferência serão acatadas pelo governo ou admite que este possa ser mais um caso em que tudo não vai sair no papel?
André Matsushita – A diferença nesta iniciativa que partiu da sociedade através do movimento liderado pela OAB é que, em vez de simplesmente cobrar, a comunidade está propondo uma parceria e buscando apontar soluções. Todo trabalho conjunto pode dar frutos. Acredito que esta iniciativa pode ser a semente que frutificará uma política de segurança pública diferenciada e eficaz em Mato Grosso do Sul.
OAB/MS – O sr. falará sobre o tema “Justiça e Segurança Pública contra o Crime Organizado” durante a conferência. O que tem sido feito na prática no combate ao chamado crime organizado em Mato Grosso do Sul?
André Matsushita – Temos trabalhado de forma técnica na repressão a ação criminosa, através do serviço de inteligencia da Segurança Pública para fazer frente às quadrilhas que estão se organizando. Em Mato Grosso do Sul, felizmente, não temos a instalação de organizações como acontece em estados como São Paulo e Rio de Janeiro. Porém, estamos trabalhando, de forma preventiva, para evitar que no futuro isso venha a ocorrer.
OAB/MS – O fato de a própria polícia em nível estadual e federal admitir que Mato Grosso do Sul é um corredor de armas e drogas que entram no Brasil pelas fronteiras com o Paraguai e a Bolívia não faz do estado um entreposto ideal para que essas organizações do crime aqui instalem suas filiais?
André Matsushita – Não, pois como você mesmo diz o fato de ser corredor não faz do estado o destino final desses produtos ilegais. Por esta característica peculiar essas organizações não se estabeleceram aqui.
OAB/MS – Coordenadores do Movimento MS Contra a Violência têm afirmado que o Presídio Federal de Campo Grande seria um novo fator a atrair unidades do crime organizado em seu entorno, já que tem recebido os principais chefes de organizações criminosas presos no Brasil desde sua instalação. Como o sr. vê essa situação?
André Matsushita – Trata-se de uma crença que equivocadamente vem se difundindo desde que o Presídio Federal foi instalado aqui. Esse pessoal não tem interesse em morar no Bairro Dom Antônio Barbosa (vizinho ao presídio) porque isso em nada facilitaria a entrada de objetos ou de informações no presídio. Tanto faz estar vizinho ou a dois mil quilômetros distante que a dificuldade de acesso aos detentos é a mesma. Não há razão de ter um aumento de criminalidade pelo fato de a cidade sediar a detenção federal. Isso não foi verificado em nenhum caso de presídio federal instalado no País até agora.
OAB/MS – Voltando à aproximação da sociedade com o poder público no combate à violência. Além de iniciativas da sociedade como o Movimento MS Contra a Violência existe alguma atitude neste sentido pelo próprio governo?
André Matsushita – Existe a Polícia Comunitária, uma nova política nacional de segurança pública, que está sendo implantada com diretrizes da Secretaria Nacional de Segurança Pública e neste sentido Mato Groso do Sul é um dos estados mais adiantados. Já formamos pelo menos 22 turmas de polícia comunitária. Há estados da Federação que não conseguiram formar nenhuma. Isso vai refletir a médio e longo prazo na melhoria da sensação de segurança pública da sociedade. O primeiro curso foi ministrado para delegados de Polícia Civil, oficiais da Polícia Militar, diretores de escolas. Inclusive até representantes da OAB participaram. Eu fiz o curso e me tornei em um de seus difusores. Percebi a importância da aproximação do poder público com a comunidade. Esse programa busca abrir um canal permanente de comunicação entre a sociedade e a polícia, quebrando barreiras e até preconceito dos dois lados. Confiamos que esse trabalho vai refletir numa mudança de comportamento dos dois lados e fazer com que as ações da polícia tenham auxílio da comunidade e se tornem bem mais eficazes.